segunda-feira, 25 de agosto de 2008

As adaptações

É impressionante como as pessoas se adaptam ao ambiente em que se encontram. A capacidade de adaptação da raça humana é um de seus grandes diferenciais evolucionários, o que por muitas vezes a ofereceu a ela grande poder sobre outras espécies. No entanto, como grandes poderes vem com grandes responsabilidades, eles podem ser usados tanto para o bem quanto para o mal.

A nossa capacidade de adaptação faz com que o lugar onde vivemos esteja diretamente ligado ao que somos, seja na língua falada, na comida de agrado, no deus que se acredita, na maneira de agir ou de resolver os problemas. A adaptação é algo natural e é uma proteção desenvolvida durante a nossa evolução, característica extremamente necessária por sermos seres que vivem em sociedades.

A adaptação tem os seus efeitos colaterais, porém. Adaptar-se a uma maneira de pensar ou agir pode significar não ter que pensar ou agir de maneira própria. A típica informação pré-mastigada. As adaptações humanas ao seu ambiente geram cegueira intelectual, incapacidade de ver a realidade da maneira que ela é, formando um muro onde só se vê deste lado. Grandes acontecimentos ao longo da história vem acontecendo por esta razão. Quem nunca pensou em como uma tragédia que nem o holocausto teve tantos seguidores e atingiu estados tão avançados, atingindo milhões de pessoas? Foi a capacidade de Hitler e seus aliados de explorar essa falha comportamental do ser humano, causada por sua própria capacidade de adaptação, que levou este acontecimento a tal nível. Os humanos adaptaram-se às circunstâncias para proteger a si mesmos e isso os cega.

As adaptações acontecem de maneira tão freqüente e comum que nem nos damos conta dela. Usamos novas gírias e expressões, mudamos de guarda roupa de acordo com a moda da estação e escutamos as músicas que estão em alta. Grandes adaptações também acontecem no nosso local de trabalho, seguindo a constante regra universal do equilíbrio.

Astronautas quando ficam muito tempo no espaço são obrigados a passar horas por dia exercitando-se em máquinas pois o seus corpos estão se adaptando as novas circunstâncias na falta de gravidade, onde músculos e ossos fortes não são necessários. O corpo perde força e rigidez rapidamente já que estas não são mais características necessárias, o que pode gerar grandes problemas quando estes astronautas voltarem a Terra.

Coisas inúteis para nós são rapidamente descartas; sejam estas objetos, informações irrelevantes ou até características físicas não mais usadas. E assim, toda a informação que aprendemos só será gravada se entendermos para que ela nos servirá, é natural, mesmo que infelizmente a utilidade pareça ser simplesmente ir bem nas provas do final do semestre.

Alguns questionam a utilidade de se ter formação superior, afinal, existe muita gente graduada sem emprego, certo? Bom, eu, como universitário, tenho visto bastante vantagens em tal nível de aprendizado. Estar em um ambiente de trabalho da mesma área dos estudos também muito favorece a compreensão da utilidade das informações aprendidas, já que elas são instantaneamente relacionadas a possíveis soluções no nosso dia-a-dia. Adaptação certo, também precisamos de informação para nos adaptarmos ao nosso ambiente de trabalho.

Sim sim, mas e se o ambiente de trabalho não exige, não valoriza e até rejeita o conhecimento? É um grande erro de algumas empresas, comentado em qualquer livro de administração, a a falta de ações para incorporar e reter boas competências.

Na maioria dos casos um funcionário que se sinta sub-valorizado (vou além do dinheiro) procuraria outra oportunidade e mudaria de emprego assim que uma surgisse. Afinal, não se pode deixar de lado todo o seu conhecimento para se adaptar ao resto que não tem um fração de sua preparação!

Mas o que acontece quando trocar de emprego não for uma opção? A primeira reação, na minha opinião, seria tentar introduzir uma nova mentalidade no local, adaptando este à nova realidade do mercado, afinal é para isso que empresas contratam consultorias e gente especializada. Depois de várias tentativas frustradas o que se consegue é conflito, muda-se então a estratégia. Agora, por ações, tenta-se mostrar um novo caminho. As suas ações e bons resultados obtidos, por algum motivo muito estranho chamado "paradigma estúpido", não representam provas da dignidade do seu trabalho.

Com o passar do tempo bate a adaptação tão natural. Os conflitos diminuem e as coisas se acalmam. A necessidade de melhora também não parece mais valer a pena. O que tem de errado com o mercado?? Ironicamente é a pergunta sem resposta, sem valor e muito menos objetivo que não quer calar. -Quem tem que mudar somos nós, empresa!! o pensamento passa com uma respiração profunda que me conforma por todas as tentativas inúteis e incompreendidas que já tive.

Mas as pessoas se acostumam, ou se adaptam, à esse ambiente. Isso é bom, certo? Muito menos conflitos... entra-se na rotina do lugar. Que bom! Vamos esperar para que as coisas melhorem...

-Opa, mas que estranho... eu não tinha previsto isso! mais um efeito colateral da adaptação? Só pode ser.

Assim como o corpo dos astronautas se disfaz dos músculos por eles não terem mais serventia naquele ambiente, começa-se a perder a capacidade e o interesse em aprender coisas novas e continuar a evoluir intelectualmente já que estes fatores não terão serventia alguma e, ainda por cima, trarão novos conflitos no ambiente de trabalho.

Não existe mais a relação do que se aprende com sua aplicação no dia-a-dia profissional e a utilidade da informação aprendida não é mais compreendida. Resultado? Uma empregado conformado sem interesse ou necessidade de qualquer tipo crescimento intelectual. Maus resultados acadêmicos também se juntam à estes fatores pela sua incapacidade de absorção das novas informações agora sem utilidade.

Para a empresa? a contínua incapacidade de melhorar os seus processos e aumentar a sua competitividade em relação ao mercado, em constante evolução, é levada adiante. O final parece óbvio.

A adaptação pode ou não ser uma grande característica dos seres humanos. Eu só sei de uma coisa.. Tenho medo dela, tenho medo de me tornar no que eu não quero ser.

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